|
A terceira e última parte do Especial – Paulo Carcasci mostram as visões extra-pista do piloto, que não poupa críticas à administração do kart no Brasil. Aqui ele também conta como nasceu a Seletiva Petrobras e se ficou algo por fazer na sua carreira. Confira:
Allkart.net – Hoje seu irmão é membro da Comissão Nacional de Kart. Qual é a sua visão da CNK hoje?
Paulo Carcasci - Eles fizeram muito menos do que eu esperava. Eu esperava e gostaria que o Felipe Giaffone e o Binho tivessem feito muito mais. Eu sei alguns dos motivos, sei que o Cleyton (Pinteiro, presidente da CBA) tem todas as boas intenções. Conversei com ele durante o Desafio das Estrelas, lembrei a ele algumas coisas e ele tem o pé no chão. Mas infelizmente é uma posição política demais. CNK e CBA tudo é muito político. Acho que o gerenciamento do esporte no Brasil, desde CBA até a FASP, em todos os âmbitos, tem que ser modificado. Não funciona do jeito que está. Tem que ser profissional, com uma diretoria, dentro de um conselho onde esses caras podem ser mandados embora. Se a gente não gostar do Binho e do Felipe na CNK junto com o (Rubens) Gatti, nós podemos mandá-los embora. Quem é que vai fazer isso, eu não tenho a menor ideia.
Allkart.net – Você conversa com o Binho sobre esses assuntos?
Paulo Carcasci - Sempre. Eu dei palpite para ele de janeiro até 16 de março, todos os dias até eles tomarem posse. Acho que eu dei todos os conselhos que poderia ter dado, mas, lógico, não depende só dele para fazer as coisas. Eu tenho um monte de ideias que são minhas, mas que não necessariamente vão funcionar no kart ou para o kart. Talvez eu seria a pior pessoa para ir lá e gerenciar porque eu seria um ditador.
Allkart.net – Nossa próxima pergunta é se você teria vontade de assumir um cargo de comando no kart nacional.
Paulo Carcasci - Claro que eu tinha. Mas ou eu ia ser um cara que ia fazer tudo dar certo ou seria uma tragédia porque eu ia ser um ditador odiado e o pessoal ia querer me matar. Eu odeio essa ideia de democracia, de querer ouvir todo mundo. Porque, é lógico, cada um vê de um jeito, cada um tem uma ideia. Mas dentro da minha ideia, eu consigo imaginar o começo, o meio e o fim daquilo tudo. Por isso quando eu dou minha opinião eu aponto e digo ‘se vira’. De repente dentro de um consenso vocês conseguem algo melhor do que eu estou sugerindo. Mas algumas coisas são básicas, por exemplo: estamos em um monopólio de pneus há muitos anos. O pneu custa 250 reais na Argentina e, para nós, 450. O mesmo pneu fabricado em Porto Alegre. Por que? Por que nada é feito em relação a isso? Claro que tem uma questão de mercado, não tem interesse de outra fábrica entrar, tem questões tributárias, que são um problema no Brasil. Mas por que não, então, se tem uma Federação interessada, ela não vai buscar apoio ao esporte para diminuir essa tributação?
Allkart.net – Você já teve oportunidade ou convite para assumir um cargo de comando?
Paulo Carcasci - Não.
Allkart.net – Você também discorda de alguns aspectos na divisão das categorias.
Paulo Carcasci - Claro. Vou dar um exemplo: hoje mesmo conversei com um piloto que tem 11 anos e vai andar de Júnior Menor no ano que vem. Daí ele foi fazer o primeiro treino com o chassi Júnior Menor, teve que puxar a pedaleira porque não alcançava, botar banco de Cadete, colocar as barras extensoras para o banco, encher o kart de chumbo. Então o kart que serve para ele é o Cadete, não o kart grande. Está errada a distribuição de categoria. Outro ponto: por que na Cadete, que o cara corre dos oito aos 11 anos, ele passa três anos correndo, ele não freia? O que você aprende repetindo todos os anos um kart onde você anda de pé embaixo a volta inteira? Nada. Ele está perdendo tempo. No Super Cadete o cara tem que frear. Quando acelera patina, na chuva pode até rodar.
Então eu acho que a Cadete tinha que ser, na verdade, a Mirim. E a Super Cadete estar no lugar da Cadete atual. O cara não pode perder três anos da “carreira” dele andando em um buguinho onde a única coisa que ele aprende é andar na referência e andar no vácuo. Só se ele for correr de Nascar, aí estamos preparando direitinho. Em tomada de tempos de Cadete a discussão é quem vai puxar quem, quem vai seguir quem. Espera aí. E aquele negócio de guiar, acertar a volta? Não tem. Daí ele gasta três anos andando no parachoque do outro. Abaixando a cabeça sem olhar para a pista. Para quê? Eles já estão na altura do volante. Precisa olhar para a frente. Guiar o kart.
Outro ponto que eu discordo e já avisei ao Binho. Por que qualquer um que quiser montar um kart Cadete no Brasil, tem que comprar eixo e freio da Mini? Por que os chassis de Cadete no Brasil ainda são de 900 milímetros e na Europa já são de 950? Por que a gente está sempre para trás? Não tem que ficar igual a Europa, mas algumas coisas tem que aproximar. E eu avisei tudo isso ao meu irmão. Porque a Riomar fez um motor refrigerado a água e entrou na Júnior Menor e eu não entrei na concorrência? Mesmo tendo enviado repetidos e-mails ao Pedro Sereno perguntando o que era necessário para colocar o Fireball na categoria; e mesmo tendo entregado um motor pessoalmente para o Pedro e para o Paulo Scaglione na Copa Brasil de 2006 quando eu trouxe o primeiro Fireball para o Brasil. E disse a eles: ‘vendam esse motor a custo no Brasil. Eu abro mão de lucro, abro minha planilha de custo, vocês escolhem uma ou duas categorias e vendem o motor’. Exatamente como foi feito com a Honda na Cadete. Daí eles esperaram um ano e, quando o Mário teve o motor dele a água, colocaram o motor na Júnior Menor e na Júnior e sequer me deram a chance de concorrer. Agora eu questiono a nova CNK que vai manter as juniores do mesmo jeito e eu não posso tentar entrar de novo. E nisso o kart continua sem evoluir e a gente briga com o próprio irmão...
N.R.: Paulo Carcasci é o representante dos motores Fireball no Brasil.
Allkart.net – Pelo jeito você também sempre teve essa visão empresarial no kart, fazendo carenagem, importando motor. O que você fez fora da pista?
Paulo Carcasci - Primeiro eu fiz a carenagem, que era um bico, e depois eu precisava ganhar dinheiro e fiz um aerofólio também. Pedi emprestado ao Dárcio dos Santos (chefe da equipe PropCar de Fórmula 3) uma asa que ele tinha de Fórmula 2, peguei o desenho, adaptei para o kart e vendi para o Super Kart em 1982.
Allkart.net – Você também é um dos responsáveis, junto com o Binho, pela Seletiva de Kart Petrobras. Quem idealizou o formato desse campeonato?
Paulo Carcasci - Em 1997 eu fiz um campeonato da ELF aqui na Granja Viana. Era um projeto onde a Elf estava pedindo apoio para a Renault, cujo diretor esportivo na época no Brasil era o Paulo Becardi, que era amigo do Binho. Eu tinha acabado de ganhar o Brasileiro de Itu naquele ano e saindo da pista meu irmão me apresentou ao Becardi, que explicou o que eles precisavam: era um campeonato de kart que daria um prêmio para um piloto brasileiro. Como ele não entendia de kart, pediu minha ajuda. Fui com ele a uma reunião, onde estava uma empresa de marketing contratada pela Elf que queria fazer um Campeonato Brasileiro de Kart com karts alugados, enfim...eu expliquei que não poderia ser assim, não havia permissão da CBA e etc. O prêmio era o piloto ficar seis meses na França com tudo pago para fazer um curso de pilotagem do La Filière, que era ministrado pelo Henry Pescarolo. Foi aí que eu coloquei minhas ideias: fazer com kart de verdade, karts iguais, peso igual para todo mundo, sorteio dos karts e etc. Foi mais ou menos assim que aconteceu. Depois o Binho, que na época trabalhava na Reunion, pegou a ideia, montou um projeto e vendeu para a Petrobras. Aí que nasceu a Seletiva. Demos uma ajeitada naquela ideia que foi feita em duas semanas, conversamos mais sobre como melhorar e saiu a Seletiva.
Allkart.net – Você acha que o formato da Seletiva realmente premia o melhor piloto?
Paulo Carcasci - Acho que o melhor daquele dia vence, com certeza. Porque a Seletiva minimiza muito o impacto do kart. Você troca de kart a toda hora, a tomada de tempos é feita em cima do mesmo kart. Você faz a volta com seu pneu e seu chumbo, depois tira e o próximo faz o mesmo com o mesmo chassi. O Biland não precisa nem carburar, então não tem isso. Daí você tira mesmo o melhor. Não necessariamente aquele é o melhor piloto para o resto da vida, mas naqueles dois dias ele foi o melhor, sem dúvida.
Allkart.net – O Rafael Daniel, tricampeão da Seletiva, disse que um dia vai contar qual era o segredo dele com o motor Biland. Dá para ter segredo?
Paulo Carcasci - Só um parênteses, o Rafael ganhou a primeira Seletiva dele aqui na Granja (em 2002) com motor dois tempos, quando usávamos os Parilla RL refrigerados a água. E, para mim, aquela foi a melhor e maior vitória de qualquer um na Seletiva. Porque ele ganhou em cima do Rubens Carrapatoso. Lembro que quando chegou na Pré-Final era o Carrapatoso, que já era campeão do mundo, em primeiro e o Rafael em segundo. Depois de seis ou sete voltas o Daniel foi lá e passou o Carrapatoso e os dois chegaram na bandeirada separados por um kart. Depois da corrida o Carrapatoso estava acabado. Ele veio conversar comigo, não como Seletiva, mas como Paulo Carcasci, para perguntar o que tinha feito de errado – que eu nem pude responder porque eu assisti a corrida preocupado com os karts andarem iguais, não com a pilotagem de um ou de outro. Enfim, quando sorteamos os karts de novo para a final, um pegou o kart do outro. Então o Carrapatoso foi com o do Daniel e vice-versa para a última corrida. Na largada, a mesma coisa, Carrapatoso na frente e Daniel em segundo; e, de novo, depois de sete ou oito voltas o Rafael passou para primeiro, mas dessa vez ele abriu dois karts. Para mim, então, aquela vitória do Rafael Daniel foi a coisa mais impressionante que eu já vi alguém fazer na Seletiva. Porque ele ganhou do cara que era campeão mundial de kart duas vezes, com dois karts diferentes. E isso tudo era com Parilla RL e não tinha nada de segredo de Biland ou não.
Allkart.net – Mas voltando ao Biland, vocês garantem que não tem como encontrar um segredo no motor?
Paulo Carcasci - Passei muito tempo junto com o Paulo Breim e com o Maurício pensando em segredos do motor e vimos que não tem como. O que pode ser segredo é a pilotagem, aproveitando melhor o motor já que o Biland não tem aquela resposta nervosa do motor dois tempos. Então para você tirar um pouco mais do motor, você pode dar o pé antes mesmo do que seria no 125. Então não pode ser um segredo de acerto, mas talvez de saber aproveitar melhor aquele motor, de ter essa sensibilidade. E aí, sim, eu acho que o Rafael tinha. Mas, como eu disse, na minha opinião a maior vitória dele foi essa com motor Parilla em cima do Carrapatoso.
Allkart.net – Agora já partindo para um encerramento: você tem saudade da sua época de kart?
Paulo Carcasci - Não. Até porque o melhor kart que eu já guiei e corri foi o Shifter. Então os karts que eu andava naquela época não eram nada bons como são os de hoje. O Shifter é muito mais rápido, muito mais forte, com freio na frente, seis marchas, 42 cavalos, quer dizer, é um demônio.
Allkart.net – O Shifter chega a ser parecido com alguma outra coisa que você guiou fora do kart?
Paulo Carcasci - É bem parecido com os Fórmula 3000, por ser bem rápido. Não tem aquela coisa de fazer curva a 250 km/h, mas em curva de baixa, por exemplo, é bem parecido.
Allkart.net – Você disputaria um Brasileiro de Super Sênior, por exemplo, fora do Shifter?
Paulo Carcasci - Não. Eu voltei a correr, primeiro porque eu gostei de andar de kart e ter andado bem naquela brincadeira em Homestead. E depois porque o Shifter é fantástico. Eu sempre tive vontade de correr desde que eu trabalhei na Granja e fiz o primeiro Brasileiro deles aqui em 2006. Mas faltou oportunidade de poder treinar e ter o equipamento, que aconteceu nesse ano. Mas correr de kart 125 eu não faço questão. Até poderia para promover o Fireball e tudo, mas não tenho estímulo para isso.
Allkart.net – E fora do kart você continua trabalhando como coach do Giancarlo Vilarinho. Com quem mais você já fez esse trabalho?
Paulo Carcasci- Com o (Antonio) Pizzonia, com o (Luciano) Burti...
Allkart.net – Seu trabalho com o Pizzonia teve a ver com o fato de seu pai ter ido morar em Manaus?
Paulo Carcasci - Sim. Meu pai morou lá na época em que o Reginaldo, pai do Antonio, corria de kart. E meu pai ia lá ver porque gostava e eles se conheceram. Bem depois, quando o Antonio foi para a Inglaterra andar de F-Vauxhall e não estava indo bem, precisava de ajuda, o Reginaldo ligou para meu pai e pediu para eu ir lá ajudar. Também trabalhei como consultor da equipe Stewart de Fórmula 3 quando o Thomaz Scheckter e o Narain Karthikeyan eram os pilotos. Depois disso fui chefe de equipe de Fórmula 3 da SS Sport na Inglaterra, era uma equipe familiar e eu era chefe de equipe, piloto de testes, engenheiro e coach do piloto.
Allkart.net – Você se sente frustrado por não ter guiado um Fórmula 1? Era um sonho?
Paulo Carcasci - De maneira alguma. Na época do kart não era um sonho, mesmo quando eu fui para a F-Ford na Inglaterra ainda não era um sonho. Porque ali eu precisava apenas de uma profissão e queria qualquer coisa para ser piloto profissional. Mas é quando você chega em uma Fórmula Ford, que você vê que tudo é sem graça. Aí sim vem o desejo de pilotar um Fórmula 1.
Allkart.net – Você é satisfeito com a sua carreira?
Paulo Carcasci - Pra caramba. Ganhei de F-Ford, ganhei de kart, ganhei de F-3000, ainda voltei e ganhei de Shifter. Só faltou mesmo correr de Fórmula 1. E é aquela coisa, eu não gostaria de ter corrido de Fórmula 1. Eu gostaria de ter ganhado de Fórmula 1.
Ficha técnica – Paulo Carcasci
Nome: Paulo Carcasci
Data de nascimento: 07 de janeiro de 1964
Naturalidade: São Paulo, SP
Principais conquistas: 7 títulos do Campeonato Brasileiro de Kart / 5 títulos do Campeonato Paulista de Kart / 1 título do Campeonato Paulista de Super Kart / Campeão Europeu de F-Ford 1.600 / Campeão Inglês BBC de F-Ford 2.000 / Campeão da Gold Cup de F-3000 / Campeão Japonês de F-3
Momento inesquecível no kart: “Uma corrida de Super Kart na chuva em Interlagos que eu venci com meia volta de vantagem sobre o Emerson Fittipaldi”.
Principais adversários: Mário Sérgio de Carvalho; Túlio Meneghini; Fernando Croce (no Super Kart); Fernando Ramos.
Pista preferida de kart: Interlagos
Pista preferida no automobilismo: Suzuka (Japão)
Galeria de Fotos:
Created with Admarket's flickrSLiDR.
Siga o Allkart.net também no Twitter! Clique aqui.
Ricardo Belussi e Nei Tessari / São Paulo
|